Rascunhando#1
Sobre Frio e Melancolia
Que semanazinha desgraçada. Acredito que não amo tanto o frio mais. Além de congelar o movimento, as roupas de inverno são ridiculamente caras, custando o preço de um ssd por um moletom que preste. Mas devo ficar satisfefeito: tenho uma boa manta e um casaco quente, e é incrível pensar que tem pessoas que nem sequer têm isso para se proteger do colapso térmico.
Alguma pessoa por aqui disse estes dias que o calor é a “burguesia em forma climática”, só que vossa senhoria precisa recordar que chuveiro quente às vezes é um luxo invisível. Acredito que os moradores de rua têm uma forma melhor de se refrescar no verão do que de se aquecer no inverno: se vestir de forma seminu, achar água de torneira, talvez uma lagoa ou praia. Ambos os cenários são difíceis, mas creio que se refrescar seja um teto mais realista na escala do desespero. Mas sei que nossa colega estava num debate não tão sério, então, dito isso: os ricos têm ar-condicionado e aquecedores de última geração, então a verdade nua e crua é que estamos todos na merda de forma democrática.
De qualquer forma, o calor está fazendo uma falta absurda. Para mim, que vivo fora de casa e dependo da rua, ficar trancado entre quatro paredes está sendo de matar. Ficar em casa só me dá um motivo a mais para procrastinar ou ficar sozinho com minha própria cabeça, o que, convenhamos, é um inferno completo. E, com certeza, o algoritmo do meu Instagram não ajuda em nada, me entregando uma enxurrada de edits deprês de matar ao som de Radiohead e ABBA com reverb.
Quando finalmente desligo a tela do celular, eu penso sobre o que eu quero fazer da vida e, principalmente, do que devo abrir mão para ter isso. Mas faço isso enquanto continuo no maldito Spotify escutando o ápice da deprê. Acho que odeio esse frio porque ele funciona como um espelho: lembra como minha alma e a chama da esperança se esfriaram temporariamente, me levando direto para o abismo da melancolia. E eu odeio a melancolia... Por que diabo gostamos de estar tristes?
Já viram quantos fãs do Ryan Gosling existem por aí hoje? É uma legião. Eles se identificam com o estado de melancolia absoluta e o silêncio de seus personagens em Drive ou Blade Runner. O Instagram está cheio de reels extremamente depressivos com a #real, que talvez seja a roupagem moderna do velho sad boy. Trocaram as imagens conceituais do Bart Simpson e do XXXTentacion pelo Ryan Gosling e o Radiohead de fundo.
Se pararmos para pensar, é bem possível que, antigamente, os russos e franceses lessem as páginas de Nietzsche, Schopenhauer, Dostoiévski e Kafka e pensassem o equivalente a: “Caramba, literalmente eu.” Essa necessidade de se afundar nas próprias emoções e, de alguma forma romântica, sentir que não está sozinho na lama sempre foi um traço comum da humanidade.
A grande diferença é que sair dessa bolha era muito mais fácil antigamente; hoje, o algoritmo foi projetado para que fiquemos tristes ou ansiosos pelo simples fato de estarmos tristes e ansiosos. É um looping de feedback que consome nossa energia térmica.
Para quem acredita que é mais culto, superior ou melhor por pensar de forma tão profunda e dolorosa, isso até pode ser verdade, meu caro Sócrates. Mas me responda com honestidade: quem é mais feliz no final do dia? Eu acredito que todos nós temos, sim, que mergulhar em nós mesmos de vez em quando para entender o mofo. Mas, acima de tudo, saibamos voltar à superfície para respirar, pedalar na estrada, conversar olho no olho com alguém ou bater uma laje. Qualquer coisa física que nos tire da inércia. É exatamente o que estou tentando fazer agora, gastando o recurso de escrever qualquer coisa para colocar a máquina em movimento.
Eu sou um ateu convicto de Descartes e sua frase clássica “Penso, logo existo”. Se algo está apenas trancado na minha cabeça, aquilo é real mesmo ou é só fumaça? Talvez o doido do Platão estivesse certo sobre o mundo das ideias, mas eu prefiro a física do chão. Eu diria o seguinte: se penso, eu apenas penso; mas, se eu faço, eu me manifesto no mundo.
Só peço ao Criador para que o calor volte logo, para eu poder me manifestar mais na rua. E sei que, quando ele voltar, vou pedir o frio de volta, porque provavelmente farei tantas coisas e gastarei tanta energia que ficarei exausto, precisando novamente de um tempo isolado para mim. Nossa vida parece ser esse eterno pêndulo em busca do equilíbrio.
Só quero lembrar às pessoas que se envolver nos pensamentos é ótimo, desde que voltemos à vida a tempo.
Olá ao meu pequeno público de 27 assinantes e, talvez, 13 leitores ativos (onde a grande maioria, sejamos honestos, são entes queridos) e aos que chegaram agora por algum estilhaço do Instagram. Independente de como vieram parar aqui, todos vocês são meus repudiados.
Eu deixei vocês na mão nessas últimas semanas, mas procuro retomar o ritmo. O Rascunhando nasce como uma nova esquete que vai caminhar junto com a Nota de Repúdio. É o espaço que preciso para respirar entre os textos mais sérios, pesados e bem-feitos. Uma forma de manter o motor ligado, ser constante e não perder o pouco engajamento que tenho, já que nas Notas tradicionais o custo de recurso é alto e não consigo ser tão frequente.
Só saibam que eu não abandonei a Nota de Repúdio tradicional e continuarei fazendo o meu melhor nesta plataforma. Então, se você está lendo isso, assine e curta para apoiar o projeto, ou clique se você apenas quer o calor de volta.


